Quando as orquídeas se vão


Orquídea sapatinho
Orquídea sapatinho

Desde pequeno, tenho um medo irracional de perder coisas e pessoas. Mal conseguia entender como se ganhava dinheiro e já tinha pavor de ficar pobre. Com relação a objetos, tenho uma índole acumuladora, assim como minha mãe, muito embora me esforce continuamente no sentido de adotar um estilo de vida mais minimalista. Foi com muita obstinação que me livrei de várias quinquilharias que vinha guardando há décadas.

Neste contexto, foi de extrema importância participar do projeto Desapegão, concebido e levado a cabo pelo jornalista Márcio Oyama, do blog 365. Embora não tenha adquirido nenhuma peça nova de roupa durante o ano passado, acabei me desfazendo de uma pequena montanha de vestuário e calçados. Foi uma incrível sensação de alívio e dever cumprido. Apenas fiquei com pena de quem eventualmente tenha recebido as doações, já que muitas peças, embora em bom estado, somente teriam sido apropriadas no milênio passado.

Frente a este background, não é de se espantar que minha relação com as orquídeas que cultivo no apartamento seja das mais complicadas. Logo que comecei a colecioná-las, passei por um surto consumista sem precedentes. Com a nobre desculpa de que se tratava de um aprendizado, adquiria orquídeas loucamente, quer seja em exposições, garden centers, feiras, pela internet e até no supermercado. Andava pela rua olhando para cima, na esperança de ver alguma orquídea encarapitada nas árvores da vizinhança. Também lançava olhos cobiçosos em direção às orquídeas dos condomínios da redondeza. Uma vergonha...

Só não fui à falência porque, muito cedo, descobri que não era tão trivial cuidar de orquídeas, principalmente em apartamento. Mal dava conta de uma mini samambaia. No início, tudo o que eu sabia era que existia orquídea branca, orquídea amarela, pintadinha, coisas do tipo. Junto com a fama de louca das orquídeas, fui construindo o perfil de serial killer destas pobres criaturas.

Por não saber como cultivar orquídeas apropriadamente, decidi parar de comprá-las, até que a mortandade estancasse. Foi um período extremamente importante de aprendizado, que comecei a compartilhar no blog Orquídeas no Apê e não parei mais.

Hoje, confesso que ainda mato uma quantidade considerável de orquídeas, mas coloco a culpa na varanda do apartamento que, definitivamente, não é o local ideal para cultivá-las. Só o faço por teimosia. Com tantas condições adversas, é sempre uma dor quando alguma flor parte, como é o caso da orquídea sapatinho na foto de abertura deste artigo, fazendo a lady vintage. Apesar da tristeza, sigo acreditando que minha vida tornou-se infinitamente melhor na companhia destas plantas. Além disso, com as orquídeas, temos sempre a esperança de que elas retornem no ano seguinte.

14 comentários:

  1. Sérgio!
    Também fico triste quando elas acabam sua floração. O bom disso tudo é que elas voltam (torcemos com muita força)!!
    Elas nos ensinam a paciência da espera e a minimizar a frustação.
    Um abraço!
    Liza

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    1. Tudo bem, Liza? Que alegria receber sua visita e ler seu comentário! Com certeza, elas sempre nos proporcionam este aprendizado. Adorei sua mensagem, muito obrigado pela participação!

      Um grande abraço!

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  2. Estou aprendendo isso tbm Sérgio! Mas passei um período de sofrimento por perder algum exemplar.hj estou bem mais tranquila em relação a isso um abraço amigo. Adoro seus textos e abordagens.

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    1. Oi, Regina! Que alegria saber disso, parabéns! Fico feliz por saber que tem gostado dos textos, muito obrigado por prestigiar este trabalho!

      Um grande abraço!

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    2. Não moro em apartamento, mas já matei algumas orquídeas. Dolorido.

      Mas falando em consumismo e desapego, Sérgio, quantas orquídeas você comprou em 2016? rsrs...

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    3. Oi, Eduardo! De fato, é uma tristeza... Mas ótima a sua pergunta! Devido aos excessos que cometi nos anos anteriores, penitenciei-me em 2016 e fiquei sem comprar uma única orquídea!

      Vamos ver até onde dura este recesso. Muito obrigado pela participação!

      Um grande abraço!

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  3. Olá Sérgio, Eu me identifiquei muito com vc! Moro em apto, cultivo várias orquídeas e já perdi várias pelo Saara que é a varanda... RS... Mas, depois que segui suas dicas de Humid Tray as "mortes" pararam... espero que eu esteja pelo caminho certo... Obrigada pelas suas postagens.

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    1. Oi, Claudia, tudo bem? Hehehe, achei ótimo o apelido da sua varanda! Aqui é bem parecido... Que alegria saber que as dicas estão funcionando, parabéns pelo cultivo! Imagine, eu que agradeço pelo comentário e por compartilhar sua experiência neste espaço!

      Um grande abraço!

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  4. Orquídeas são um ensinamento de paciência. Demoram a reagir qdo replantadas ou mudadas de lugar Demoram a dar flores, enfim. Elas devem ser budistas kkk
    Realmente é muito chato perder uma orquídea, mas faz parte do processo de aprendizagem. Beijos e obrigada por mais um excelente post

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    1. Oi, Andrea! Concordo plenamente, são um desafio de paciência! Adorei sua visita, que ótimo ler seu comentário! Muito obrigado pela valiosa contribuição!

      Um grande abraço!

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  5. Olá sou uma colecionadora iniciante. E me surpreendi quando vc fala que perde orquídeas. Tenho melhorado bastante a qualidade do meu cultivo. Mas infelizmente sofro com algumas que não consigo entender o que elas desejam. E quanto a este desejo de adquirir mais, tenho me controlado. Estou indo as exposições, mas o meu desejo de comprar está controlado. E antes de comprar, penso tenho que manter as que tenho com saúde.

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    1. Tudo bem, Cida? Pois é, ainda perco orquídeas, infelizmente. Estamos sempre aprendendo!

      Que ótimo saber da sua postura controlada e consciente na aquisição de novas orquídeas. Parabéns! Com certeza, é o melhor a ser feito. Muito obrigado pelo seu depoimento, sua participação é muito importante!

      Um grande abraço!

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  6. Parabéns pelo texto, Sérgio!
    Para algumas pessoas a prática do dessapego é um longo aprendizado, às vezes os objetos fazem parte de vivências, evocam lugares, sensações...Nesse caso, ficam bem colados no lugar deles.Dei uma pausa nas orquídeas, estou cultivando ervas aromáticas e plantas mais resistentes. Mas gosto muito de ler seus posts!

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    1. Oi, Wilma! É verdade, concordo com você. Tenho dificuldade para mudar, gosto das coisas sempre como estão!

      Mas que ótimo saber que está cultivando ervas aromáticas. Adoro hortas, pena que tenho pouco espaço. Fico muito feliz em saber que continua a nos visitar e apoiar, muito obrigado pelo carinho!

      Um grande abraço!

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